A investigação de um caso de supostos maus-tratos em uma creche municipal de Cerquilho, no interior de São Paulo, voltou a colocar em evidência uma triste realidade vivida por milhares de crianças brasileiras: a violência contra bebês dentro e fora do ambiente familiar. O caso ganhou repercussão nacional após a Polícia Civil retomar as investigações e identificar, por meio de câmeras de segurança instaladas no berçário, cenas de agressões praticadas contra crianças.

As investigações tiveram início após um bebê sofrer duas fraturas na tíbia enquanto frequentava a unidade de ensino. Na época, o inquérito foi arquivado por falta de provas, já que a creche não possuía sistema de monitoramento e as versões apresentadas pelos responsáveis eram consideradas contraditórias.

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Por determinação da Polícia Civil, câmeras foram instaladas no berçário para acompanhar a rotina da instituição. As imagens registradas revelaram cenas chocantes. Segundo a investigação, uma funcionária de 51 anos aparece empurrando bebês, dando tapas no rosto de uma criança de apenas seis meses, pressionando um pano contra o rosto de outra e adotando outras condutas consideradas violentas pelas autoridades.

Diante das evidências, a Polícia Civil instaurou um novo inquérito e solicitou a prisão preventiva da investigada. No entanto, antes que a medida fosse cumprida, a mulher foi encontrada morta em uma propriedade rural no município de Cesário Lange, interior de São Paulo. As circunstâncias da morte seguem sendo investigadas em um procedimento separado, enquanto o inquérito sobre os maus-tratos continua para identificar possíveis outras vítimas e apurar eventuais falhas na fiscalização da creche.

A Prefeitura de Cerquilho informou que afastou imediatamente a servidora após tomar conhecimento das imagens, registrou boletim de ocorrência, acionou o Conselho Tutelar e comunicou o Ministério Público.

O episódio também reacendeu o debate sobre a violência contra crianças no Brasil. Embora não exista um levantamento nacional específico apenas para bebês vítimas de maus-tratos, os números oficiais mostram um cenário alarmante.

Dados da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), com base no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), apontam que entre 2010 e 2019 foram registrados cerca de 25 mil casos de violência contra bebês menores de um ano, uma média de aproximadamente 2,5 mil ocorrências por ano.

Em 2023, o país contabilizou mais de 3 mil notificações de violência envolvendo crianças com menos de um ano de idade. Já considerando crianças e adolescentes de até 19 anos, somente em 2019 foram registradas 88.572 notificações de violência física, psicológica e tortura, o equivalente a 243 casos por dia. Entre crianças de até quatro anos, a média foi de 25 casos diários.

Os números mais recentes também preocupam. Entre 2020 e 2025, o Ministério da Saúde registrou 685.629 notificações de violência contra crianças e adolescentes, representando um aumento de 125% em cinco anos.

Especialistas, porém, alertam que a realidade pode ser ainda mais grave. Muitos casos de maus-tratos nunca chegam ao conhecimento das autoridades, seja por medo, dificuldade de identificação dos sinais de violência ou ausência de denúncias. Por isso, os dados oficiais são considerados apenas uma parte do problema.

O caso de Cerquilho reforça a importância da vigilância em ambientes frequentados por crianças, da atuação rápida dos órgãos de proteção e da conscientização da sociedade sobre a necessidade de denunciar qualquer suspeita de violência. Para especialistas em proteção à infância, identificar precocemente sinais de agressão pode ser decisivo para evitar consequências irreversíveis e garantir a segurança das crianças mais vulneráveis.

FONTE/CRÉDITOS: Por Jotta Camargo | JCN News -tesejuridica